Monday, 31 March 2014

Entre Nós - e a banalização da Depressão

Sábado fui ao cinema com a minha mãe assistir o filme Entre Nós, uma produção brasileira muito boa tendo em vista que a grande maioria dos filmes nacionais que estreiam nos cinemas são besteirol estilo Zorra Total. Gostei bastante do filme, com exceção de uma cena que me deixou muito incomodada. Em um certo momento do filme, dois amigos estão conversando e um deles está muito nervoso, angustiado e triste, e no meio de seu desabafo ele conta que está sem tomar "seu remédio" há três dias. A amiga, preocupada, o xinga e pergunta que remédio ele toma. Na hora ele fala o nome de um remédio muito conhecido para tratar pessoas com depressão entre outras doenças de comportamento. A tal da Fluoxetina. Prestativa, a amiga fala que tem com ela e lhe oferece. Ele fica surpreso com a revelação da amiga que se justifica: "Eu também tenho meus problemas".

Essa cena me incomodou muito, por diversos motivos. O primeiro deles foi o simples fato de mostrarem a depressão e a utilização de remédios controlados como algo normal, natural e rotineiro. O segundo foi a declaração da amiga, que justificou o uso de Fluoxetina por ter "problemas". Mas afinal, só por que temos problemas seremos diagnosticados com depressão ou alguma outra doença e será motivo para irmos direto para a medicação?

Para minha surpresa ainda maior, domingo à noite, ouço da sala um anúncio do Fantástico que a minha mãe acompanhava sobre uma revelação inédita do Chico Anysio, onde ele dizia que sofria de depressão. E a matéria que se seguiu foi inteira focada em como um ator especialista em divertir as pessoas podia ter depressão, e com números de que 25% da população tem, já teve, ou terá um episódio depressivo.

Ou seja, a depressão agora virou moda? Pois é o que parece.
Pelo que venho percebendo, ter depressão, tomar Fluoxetina, ou o "seu remédinho" é cool. Afinal, todos nós temos problemas.

Pera lá. Qualquer um nessa face da terra tem problemas, ninguém tem uma vida perfeita, nem a Kate Middleton, tenho certeza. Mas não é por causa disso que vou ir correndo atrás de um médico ou até de um amigo que tem um conhecido que é médico e pedir uma receita de Fluoxetina. E isso eu sei que é muito comum, infelizmente.

Fico triste e ao meso tempo chocada em como as pessoas, o cinema e a própria imprensa estão tratando a depressão nos últimos anos. Essa não é uma doença simples de ser explicada, muito menos em uma matéria de 5 minutos no Fantástico, ou em uma cena de 1 minuto em um filme. É muito mais complexa do que se possa imaginar, e o remédio, ao meu ver, deveria ser a última alternativa a ser tomada, literalmente.

Estar deprimido por causa de uma situação, de uma perda, ou qualquer que seja o motivo, não é justificativa nem carta verde para ir correndo atrás do tal "remédinho". Procurar um médico sério, que não seja vendido para a máfia das farmacêuticas, e que esteja preocupado em curar seu paciente e não deixá-lo cada vez mais dependente do tratamento psiquiátrico nem dos remédios é o principal caminho.

Perguntem aos seus amigos psicólogos e psiquiatras, eles vão explicar bem melhor do que eu. E vão dizer que sim, um bom tratamento, pode substituir a necessidade da medicação em muitos casos. Mas claro, sempre existem os casos mais sensíveis e delicados que precisam sim da medicação. E normalmente, estes casos envolvem falta de substâncias no cérebro, decorrentes da tal depressão genética, como o próprio Fantástico disse, como se todos os episódios depressivos das pessoas fosse exclusivamente por causa da genética. O que não é verdade.

Portanto, vocês, formadores de opinião, só peço que antes de saírem por aí falando sobre um assunto tão delicado como a depressão, deem mais espaço para falar sobre o tema, debatam mais com outros profissionais, e não utilizem apenas uma fonte para tal.
E os cineastas, roteiristas e escritores, pensem que seus filmes, livros e roteiros podem servir de inspiração para muitas pessoas.

Este foi o meu desabafo, de uma pessoa que sabe o real significado da palavra depressão há mais de 10 anos, quando ela ainda não era modinha mas já dilacerava com a vida das pessoas.

Thursday, 6 March 2014

Surpreendente

Hoje vou escrever mais para compartilhar comigo mesma um sentimento diferente de tudo o que eu já havia passado antes, do que para narrar uma viagem, ou falar sobre expectativas, frustrações e anseios.
Diferentemente dos últimos anos, este Carnaval eu passei em casa, literalmente.

Quem me conhece sabe como fui festeira, rueira, baladeira e todos outros adjetivos que liguem à festa. Mas pelo que estou começando a perceber foi uma fase, que eu precisava passar, para conhecer, vivenciar, mas que não faz mais parte do meu dia a dia, muito menos das minhas preferências.

Quando era mais nova, lá pelos meus 18 anos, por incrível que pareça também era mais caseira, gostava de fazer uma festa vez ou outra, claro, mas não era minha principal escolha. Lembro que ia todo final de semana ao cinema, preferia viajar para praia ou serra do que ficar em Porto Alegre e adorava sair para jantar. Depois fui morar fora, lá eu percebi que na rua podia fazer amizades, esquecer um pouco a saudade da família, e comecei a sair como saía aos meus 16 anos.

Voltei para Porto Alegre e só queria saber de festa, balada e agito. Me mudei para São Paulo, fiz amizades que acabaram me levando para a noite também, e gostei. Algumas destas amizades continuam até hoje, mesmo que a balada não faça mais parte da minha rotina. Foram anos bons, que hoje vejo que eu precisava viver para agora entender o que é prioridade na minha vida, sem nenhuma dúvida ou anseio.

Por que estou contando tudo isso? Porque acho que tudo o que passamos e sentimos tem uma raiz, tem um porquê. Agora, voltando ao objetivo inicial de escrever este post. O sentimento que senti neste carnaval foi de ninho completo, me senti em casa no sentido de lar da palavra, me senti completa e plenamente satisfeita. Não foi apenas o fato de eu querer por muitos anos ter novamente um cachorro em casa, nem só pelo fato de ter ao meu lado um companheiro como nunca imaginei encontrar. Mas foi pelos dois fatos juntos, e muitas outras vertentes que resultaram neste sentimento de lar completo, ninho preenchido.


Não estou dizendo que para mim está bom assim e não quero mais nada. Mas hoje, e naquele momento, isso me basta. Quero mais, claro. Quero ter a minha casa para dizer que é minha, quero casar, ter filhos, netos, mais cachorros... Mas isso é mais para frente. O que eu tenho condições de ter hoje e o que eu tenho me completa. A distância atrapalha, claro, mas não interfere neste sentimento de satisfação. De saber que encontrei alguém que está me ajudando a construir este lar, mesmo que distante a maior parte do tempo, quando presente, ele faz até mais do que precisa, tudo isso para me ver feliz.

Pois bem, foi este sentimento único, diferente e mágico que senti neste Carnaval. Não queria sair de casa, gostei de ficar ali, com estas duas pessoinhas que hoje são meu mundo, me completam e me entendem. Por isso eu agradeço à vida, à Deus, à Buda, à Alá, à Oshum e a quem quer que seja, por este sentimento e este momento. E que tudo isso permaneça, e só continue a crescer e amadurecer.